Num bom filme épico,
do género “A última Legião” corro sempre o risco de me identificar com os bons da fita, talvez por impregnação
excessiva de livros de cowboys,
numa certa fase da Infância. É uma
reacção visceral, incontrolável, embora se saiba que, tantas vezes, os “bons” não
fiquem bem na fotografia e que dos fracos não reza a História. Esta propensão
para a benevolência surge incontrolável, qual automatismo inconsciente para
mitigar os desejos acumulados.
Mas o caso muda
de figura quando se fala de compulsividade. Não é fácil sentir empatia com esta
gente. O compulsivo está senhor do que faz, encontra-se lúcido, pode optar,
escolher entre o que acha que deve fazer, mesmo que desnecessário, irrealista
ou não compreensível e aquilo que os que o rodeiam (a cultura dominante naquele
momento histórico!) consideram como aceitável em relação a determinado
comportamento. Ele está consciente do erro ou da desnecessidade do seu acto,
mas mesmo assim acaba por “pecar”, não se aguenta e pumba lá repete o automatismo,
seja lavar as mãos um montão de vezes sem qualquer justificação plausível, seja
verificar se as portas estão bem fechadas, seja comer que nem um desalmado.
Come só evitar que a ansiedade não o destrua. Ninguém é Binge Eating só por
prazer. Comer a torto e a direito, sem fome ou sem desejo de saciação, não dá
gratificação nenhuma. Enche a barriga e mais nada. A pessoa em causa sabe que está a fazer mal mas não consegue
parar e para evitar um sofrimento está a despoletar um outro. A princípio
estranha-se mas depois entranha-se, deixa-se levar porque acha que não remédio.
E paulatinamente vai escrevendo a sua própria destruição.
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São Jerónimo escrevendo, 1605-06, Galeria Borghese, Roma (http://artemazeh.blogspot.pt)
Apesar de se
ouvir falar menos dela, o “Binge Eating” é, tal como a Bulimia e a Anorexia Nervosa,
uma doença do comportamento alimentar. É
uma doença caracterizada pelo consumo exagerado de alimentos, que contribui
para uma ingestão excessiva de calorias.Carne, batatas, glúcidos em grandes quantidades e tudo o resto serve para alimentar o seu desespero.
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Os comedores de
batata Vincent van Gogh (http://artemazeh.blogspot.pt/search/label/Van%20Gogh)
Estas pessoas
costumam comer, num curto período de tempo, uma quantidade de comida muito
maior do que o comum dos mortais comeria em situações equiparáveis.
O Binge Eating é frequente nos indivíduos
obesos. Pois, eles é que têm a má fama e o muito proveito entre as perturbações
do comportamento alimentar. Olha-se para Anorexia Nervosa com como um
infestação, algo de estranho, um acesso de loucura. Coitadinha, era tão
bonitinha mas passou-se e ficou esquelética!
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In: Tumblr |
Enquanto isso,
o obeso militante é alguém como nós, cruzamo-nos ele todos os dias.
O que o distingue dos ditos “normais”,
os que não são estigmatizados pelo pensamento dominante, é que ele (ou ela!) vai-se
borrifando para a realidade e faz do seu estômago o centro do mundo. Não que viva em função das vísceras,
por força do seu masoquismo empedernido, mas porque não tem mão nas suas
emoções. As tristezas e as ânsias incontroláveis tornam vulneráveis estas pessoas. A sua maior
fraqueza está nos afectos, 50% dos comedores compulsivos (Binge Eating) com
obesidade também apresentam sintomas compatíveis com Depressão, enquanto que
apenas 5% dos obesos mas sem Binge Eating são deprimidos. Como uma
testemunha-chave, qual Adágio de Albinoni, o desconsolo emocional, os
recalcamentos, a frustração e o desânimo vão assistindo ao assalto às calorias.
Assistindo mas com culpas no cartório!
Os principais
sintomas da doença (é verdadeira patologia e não apenas uma variante da
normalidade ou uma mera bizarria) são os seguintes:
- comer muito mais rápido do que o habitual;
- comer até estar muito cheio;
- comer grandes quantidades mesmo não sentindo necessidade de comer;
- sentimentos de repressão, culpa depois de comer.
Este tipo de distúrbio tem de semelhante com
a bulimia a elevada ingestão de alimentos mas, ao contrário desta, o doente Binge Eating não provoca o vómito. Muitas pessoas
que sofrem desta compulsão alimentar passaram por grandes oscilações de peso.
Tratamento
A maioria dos indivíduos com este distúrbio
são tratados com programas convencionais de perda de peso utilizados no
tratamento da obesidade, os quais dão pouca atenção ao comer compulsivo (Binge
Eating).
A maioria dos indivíduos aceita a situação porque estão mais
preocupados com a obesidade do que com o Binge Eating.
Os tratamentos específicos para o comer compulsivo baseiam-se
no tratamento da Bulimia Nervosa. Eles incluem a psicoterapia e o tratamento
por medicamentos. Pelo que se sabe, no cérebro destes compulsivos possivelmente
haverá baixos níveis de serotonina, um mediador químico que tem uma importância
fundamental em diversos estados de humor e que está envolvido em diversos
transtornos psiquiátricos, entre eles o da compulsão
alimentar ou Binge Eating.
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